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RESGATANDO A MEMÓRIA
DA FIGURA MÁXIMA DO BANDEIRISMO


Jaime Cortesão

       Começou a interessar-nos mais de perto a figura de Raposo Tavares, já lá vão quatorze anos, quando iniciamos no Itamarati o Curso de História da Cartografia do Brasil logo transformado em História da formação territorial do Brasil.
       Breve entrevimos a excepcional grandeza do bandeirante, que devassara os sertões desconhecidos da América do Sul e alargara por forma inigualável os alicerces geográficos do Brasil.
       Mas a história da maior das suas empresas, que o levara à frente duma bandeira desde São Paulo à foz do Amazonas, passando, segundo certos testemunhos, pelos Andes, estava cheia de obscuridades e enigmas, a começar pelos objetivos e a terminar com o roteiro da expedição.

       Desde logo se nos afigurou também que havia apaixonado excesso nos severos juízos dos jesuítas espanhóis sobre ela e seus companheiros, os bandeirantes paulistas, mas que, não obstante, historiadores brasileiros de tamanho vulto, como Capistrano de Abreu, haviam subscrevido.
       Seduziu-nos a idéia de fazer alguma luz sobre a vida do homem, o ambiente social que o determinara e as razões por que os seus feitos foram envolvidos em sombras e juízos infamantes.

       E deitamos mãos à obra.

       As lições mimeografadas dos nossos cursos no Itamarati atestam o estorço progressivo para arrancar Raposo Tavares e os bandeirantes, em geral, à lenda negra que lhes deturpara a memória, e restituí-los, tanto quanto possível, a uma visão mais correta. Mas erguer o homem a toda a sua altura exigia vasta monografia, incompatível com as lições dum curso, que abrangia a história do Brasil.

       Fomos, pois, reunindo pouco a pouco os materiais para um livro a publicar em ocasião azada. Chegamos a entender-nos com um editor paulista para esse fim.

Entretanto éramos encarregados de organizar a Exposição Histórica de São Paulo no quadro da História do Brasil, comemorativa do IV Centenário da fundação da cidade, tarefa que absorveu todos os nossos esforços e cuidados. E o projeto foi adiado.

       Ora um dia que nos encontrávamos em casa do Senhor Ricardo Seabra, nosso velho e querido amigo, o Embaixador Assis Chateaubriand, que ali coincidia e já nos ouvira discorrer longamente sobre o tema deste livro, apregoou em termos calorosos a conveniência de que nos lançássemos a escrever a obra renovadora sobre o português, que soubera tornar-se a figura máxima do bandeirismo e tamanha importância assumia na história do Brasil.

       Depois dessa conversa, Ricardo Seabra procurou-nos e instou afetuosamente conosco para que realizássemos esse trabalho, que ele julgava também indispensável, oferecendo a sua Casa para correr com os encargos da edição.

       Aceitamos. E queremos aqui agradecer ao Embaixador Assis Chateaubriand a generosa insinuação e a Ricardo Seabra o estímulo eficaz e amigo que nos resolveu ao trabalho presente e a que prometemos lançar-nos de seguida. Tudo isto se passou há mais de dois anos.

       A empresa era maior do que julgávamos. Tivemos de renovar pesquisas. Novas e copiosas fontes nos surgiram.

       E como a figura de Raposo Tavares, por muito grandiosa ou singular que se afigure, é apenas um elo duma cadeia, juntamente efeito e causa, intérprete e motor duma época cujas condições peculiares havia que estudar até às suas contradições e conflitos íntimos, a obra, longe de resumir-se a uma biografia, teve que alargar-se e pretende ser a história dum período tão cheio de lições e tão mal estudado, como é o dos fins do domínio filipino e dos primeiros anos da Restauração nas suas relações entre Portugal e o Brasil.

       Veremos, pois, como se formou em São Paulo e floresceu de raiz luso-tupi um gênero de vida novo, o bandeirismo; como Raposo Tavares, mercê de condições próprias e de formação social, quer na metrópole, quer na colônia, se tornou o seu maior intérprete; como a revolução restauradora da independência portuguesa começou, em verdade, no Brasil, sob o impulso de causas econômicas locais, das imperiosas necessidades da formação geográfica do Estado e dum ambiente de maior liberdade que em Portugal — tudo intimamente ligado com o movimento das bandeiras; e como, por todos estes motivos, o choque de interesses nacionais opostos se iniciou aqui entre bandeirantes e jesuítas espanhóis.

       Dedicaremos especial atenção a um capítulo quase desconhecido da política de D. João IV no Brasil, cujos planos temerários e ambiciosos encontraram aqui, para realizá-los, personalidades tão vigorosas e representativas, como a dos grandes navegadores e pioneiros portugueses do século de Quinhentos.
       Finalmente, buscaremos situar Raposo Tavares no plano duma comunidade cultural luso-brasileira; no plano nacional, quer no Brasil, quer de Portugal; e no da história universal, como precursor ou realizador de novos conceitos do Estado moderno.

       O desenvolvimento deste plano não podia deixar de ser árduo e demorado.

       Acrescentamos em Apêndice alguns documentos inéditos, dos que mais esclarecem os enigmas que nos propusemos decifrar. Faz exceção a carta do Pe. Antônio Vieira, dos começos do ano de 1654, sobre a maior das expedições de Raposo Tavares, já anteriormente publicada por João Lúcio de Azevedo. Mas mutilada e desfigurada como foi, estava exigindo uma rigorosa análise critica, trabalho que procuramos realizar nas copiosas notas que a acompanham. Cremos com isso ter valorizado esse texto, já de tão singular importância.
       A nossa interpretação de certos fatos, muito discutidos, estava exigindo a apresentação das provas, dever de probidade a que não nos furtamos.

Jaime Cortesão
in Raposo Tavares e a
Formação Territorial do Brasi
l, MEC, Rio de Janeiro, 1958

Nota: As palavras negritadas são de nossa responsabilidade.

J.P.